Henri é o autor escolhido para a nossa entrevista do especial do Pride Month. Carioca e apaixonado por livros e música pop, ele tá sempre nas listas de mais lidos da Amazon com seus livros YA’s com as capas mais legais de sempre.

Ele tem um canal no youtube, o Bookcrushes, onde divide um pouco do seu hábito de leitura.

Sua carreira já conta com 9 publicações entre novelas e contos. Recentemente ele viu sua vida dar um salto, ao finalmente aceitar sua sexualidade e começar a escrever sobre isso. Vem com a gente saber tudo sobre a trajetória, os desafios e o trabalho maravilhoso desse autor nacional:

1. Sua trajetória como autor se mistura muito com sua trajetória pessoal. Você começou escrevendo histórias heterossexuais e contou um pouco no seu twitter (@henrib_neto) como foi essa transição. Poderia contar pra gente, do ponto de vista literário, como foi fazer essa mudança? Qual o processo que você teve que passar, para escrever histórias num momento em que nem tudo eram certezas?

Toda a mudança que aconteceu no meu trabalho foi algo que eu realmente não esperava. Quando lancei Replay, lá em 2013, era um caminho que eu planejava seguir por muito tempo – ao lado das minhas histórias de romance sobrenatural. Então, saiu minha novela de fim de ano, o conto com temática Novo Adulto e… A vida aconteceu. Ou melhor dizendo, minha mãe percebeu que eu não estava bem e que eu precisava de ajuda. Na época, achei que ela estava exagerando na preocupação materna, mas eu não queria admitir para mim mesmo que estava frustrado com vários pontos da minha vida pessoal, e que estava desenvolvendo um transtorno compulsivo – que foi justamente o que alertou ela que o meu psicológico precisava de ajuda.

No primeiro psicólogo que fui, ele jogou tão forte as minhas questões sobre a minha própria sexualidade que eu simplesmente fugi e procurou outro profissional. Foi depois de VÁRIAS sessões com o meu médico atual que começamos a entrar neste campo e que conversamos sobre como eu não me aceitar estava me fazendo mal. Veja bem, eu sempre gostei de garotas… Mas eu negava para mim mesmo que gostava de garotos também. Esta era um verdade que tentava manter enterrada dentro de mim desde muito cedo, consciente e inconscientemente, e passar por todo o processo de aceitar que a bissexualidade existe e que eu era bi, foi um longo processo. Longo mesmo. Foi quando em uma consulta, no meio de um desabafo, que ele mesmo sugeriu que eu colocasse para fora através da escrita.

Várias vezes nós conversávamos sobre o que escrevia, o que eu lia, mas aceitar esta ideia foi dolorosamente lento. Praticamente dois anos de hiato, sem abrir um documento do Word sequer. Pois eu sabia que, sim, “talvez fosse bi”… Mas colocar para fora era como transformar esta possibilidade em realidade. Durante estes dois anos, eu não contava para NINGUÉM sobre isto. Nem mesmo os meus melhores amigo. Foi quando os primeiros vislumbres de Nico, o protagonista de Contra Tempo, foram surgindo. Ao passo que eu ia coletando material para esta novela, eu mesmo ia criando coragem de contar para as pessoas ao meu redor sobre a minha sexualidade.

E ao chegar ao ponto final da história, foi como o meu grand finale para me olhar no espelho e enfim tomar coragem de sair do armário definitivamente.

2. Foi um problema para você, que teve boas colocações na Amazon com seus romances anteriores, mudar de gênero e público?

Foi um grande tiro no escuro. Eu estava saindo de um gênero padrão, com bastante alcance dentro da plataforma independente, e batendo na porta de um público que, até então, eu não tinha nenhum contato. E foi… Maravilhoso. Fui recebido muito bem, acolhido, e as respostas eram muito mais entusiastas. Algumas leitoras continuaram do meu lado nesta nova jornada, mas eu basicamente me vi construindo toda uma nova base de alcance. Eu só tenho a agradecer aos meus novos leitores, que divulgam, e postam opiniões no site e comentam no Twitter e nas redes de leitura. Realmente fui abraçado por eles, desde o primeiro momento. Me sinto MUITO sortudo por todo apoio que obtive nesta transição no meu trabalho.

3. Vamos começar falando de Conta Tempo, lançado em agosto de 2017. Como foi pra você escrever esse livro e abrir essa porta? Quais foram as suas maiores dificuldades?

Como disse, eu sempre faço esta analogia de que Contra Tempo foi o meu pé para fora do armário. Nico, o protagonista da novela, foi um dos personagens que mais receberam características minhas… Pois eu basicamente escrevi vários momentos ali quase como uma conversa comigo mesmo. As dúvidas que ele tinha, os gostos, os medos – tudo era eu, me auto analisando. Obviamente, eu e ele não somos a mesma pessoa. Chega um momento da escrita que o personagem ganha tantos contornos que acaba se escrevendo sozinho, tomando as rédeas da própria vida. Mas ele foi um instrumento imprescindível na minha auto aceitação. Talvez seja por isso que sinto que tenho uma relação tão carinhosa com esta história. Ela me ajudou muito, simbolicamente e literalmente.

4. Você consegue contar para gente o que mudou do Nicolas Guerra para o Júlio (personagem de Os Reis da Festa, último livro lançado)?

Talvez a principal mudança do Nico para Júlio foi que, enquanto o primeiro foi tomando forma meio que desajeitada, tendo que lutar com o meu inconsciente para que a sua história fosse contada, o Júlio teve um nascimento planejado. Depois da catarse que foi escrever Contra Tempo, eu queria que a minha próxima história fosse leve. Que a vida do Júlio não refletisse tanto a minha, que ele já tivesse aceitado a si mesmo. Por isso que propositalmente fiz ele ser gay, enquanto o seu interesse amoroso era bi. Pois queria criar esta “distância” entre nós, para que escrever Os Reis da Festa fosse mais fácil. Mas nem preciso dizer que isto deu muito errado né? Mesmo contra a minha vontade, nascido em uma família privilegiada socialmente, o personagem acabou bebendo muito de mim. A sua timidez, a paixão por livros populares, suas inabilidades em demonstrar que está interessado em alguém, e principalmente, sua necessidade em tentar agradar todo mundo. No livro, Júlio sente necessidade em fazer o que os pais esperam que ele faça, pois ele se sente um estranho no ninho dentro da própria casa. E isto resume muito da minha relação com o meu próprio pai. Durante muito tempo tentei fazer o que ele esperava de mim pois tinha esta sentimento de que quem eu me tornara não era o que ele esperava. Mas chega um momento em que você começa a entender que não podemos ter medo de quem nós somos. Isto só nos faz mal.

5. Dos 3 livros com a temática LGBT+ (Contra Tempo, Os Reis da Festa e Recomeço), qual na sua opinião tem um peso maior pra você?

Pode ser injusto com os outros dois, mas Contra Tempo sempre vai ter este peso para mim. Com Os Reis da Festa eu aprendi que, mesmo que a gente não queira, tudo o que escrevemos vai trazer um pedaço de quem nós somos, nossas questões e visão do mundo. Até mesmo Recomeço, uma história sobre um ex traidor que se arrepende do que fez (um dos pontos mais nefrálgicos para mim como leitor e que nunca pensei que escreveria), tem partes de mim ali. Mas Contra Tempo foi basicamente um ato de olhar para mim mesmo e de me amparar. De me perdoar. De me abraçar. Então, é isto. rs

6. A gente se conhece pessoalmente, e somos ambos conhecidos por ser críticos. Pode contar pro TRB, já que você também é um leitor o gênero, quais os esteriótipos que nunca mais deveriam ser retratados na literatura LGBT+?

Eu vou puxar sardinha para a minha letra da sigla e desabafar um pouco sobre como ainda tem autor que simplesmente não sabe escrever sobre bissexualidade. Em alguns casos, quando o personagem é bi, ele sempre tenta se afastar da sigla – seja de forma consciente, seja de forma inconsciente. Sempre quando encontro discursos do tipo “não vamos colocar rótulos” ou “eu apenas gosto de pessoas”, parece que estes autores e estes personagens não sabem que se aceitar vai muito além de ser apenas uma questão de atração, sabe? É um contexto social, e que precisa ser abordado e levado em consideração. Não que a história precise ser focada nisto, nem acho que toda história LGBTQ+ precise sempre ser um drama sobre superação de obstáculos, mas ao menos não tentar apagar a sexualidade já é um começo e que não deixaria o texto tão problemático. Pois parece que alguns autores querem deixar alguns personagens “descolados”, mas não querem abraçar a responsabilidade que acarreta. Isto para não trazer retratos problemáticos de verdade, como um personagem bi que o tempo todo está em dúvida se vai se envolver com alguém do sexo oposto ou do mesmo sexo. Este clichê do “bissexual curioso/ indeciso” é muito estereotipador e prejudicial. Vende a imagem que somos promíscuos, que nunca estamos satisfeitos em qualquer tipo de relação e só cria desinformação e preconceito.

7. Qual livro dessa temática você indica para alguém que nunca leu nada do tipo?

Nossa… Existem tantos livros maravilhosos que podem ser indicados. Sinto que se eu falar apenas de um, estarei sendo injusto com todas as histórias maravilhosas que já conheci e que se tornaram favoritas. Um Milhão de Finais Felizes, do Vitor Martins, é muito próximo da nossa realidade e extremamente sincero. Fera, da Brie Spangler, George, de Alex Gino, e Apenas uma Garota, da Meredith Russo, me ensinaram MUITO sobre transexualidade. Minha Versão de Você, da Christina Lauren, e Que Viagem, da Cinthia Zagatto, trazem uma ótima abordagem sobre bissexualidade. E os contos do Projeto Estações, do Victor Lopes, são simplesmente adoráveis. Mas sinto que estou trapaceando, pois já dei mais de uma recomendação por aqui!

8. Seu processo de escrita funciona como? Você se inspira em algum autor que queira alcançar ou na sua própria vivência?

Meu processo de escrita é meio… Tentativa e Erro? Pois, parando para pensar, acho que não tenho um método em si. Claro que existem alguns rituais, como fazer um mapa da história antes de começar a escrever ela em si, ou a epígrafe que sempre vai ser a música que me ajudou a escrever aquela narrativa – por mais aleatória que possa parecer. Mas na hora de dobrar as mangas e digitar? Varia muito de trama para trama. Cada história pede um estilo diferente, e cada uma vai seguir um fluxo diferente. Queria ser metódico e sentar para escrever duas laudas de Word todos os dias, criar outlines super descritivos… Mas não é para mim! Sou muito rebelde. Rs

9. Be Proud: O quanto há de você nos seus livros hoje e quanto havia antes?

Ah, existe MUITO mais de mim agora! As minhas referências, as músicas que escuto, os livros que vejo, os filmes que vejo… Perdi muita da vergonha e das amarras que eu mesmo me colocava na hora de escrever. Sem falar da minha própria visão do mundo. Ao longo dos anos, fui amadurecendo como pessoa, e isto se reflete nas minhas histórias. O elenco de personagens hoje em dia é muito mais variado e inclusivo, e isto ajudou até a ver com outros olhos o que eu já tinha escrito, sabe? Como o próprio Replay. A protagonista sempre foi negra na minha cabeça, mas nunca tinha colocado isto explícito no livro. Sendo sincero, nem na capa original – que eram modelos totalmente aleatórios. Na última revisão do texto, fiz questão de deixar isto claro tanto na capa quanto na própria novela.

10. Vamos te por na berlinda. Defenda um dos seus 3 livros (Contra Tempo, Os Reis da Festa e Recomeço) para ganhar numa batalha:

Ah, estes 3 são combatentes fortes. Recomeço tem muito da minha vivência social no meio LGBTQ+, e como às vezes precismos analisar alguns comportamentos tóxicos que são vendidos como “cool” e que não é bem assim. O protagonista é um reflexo disto, e ele mesmo se assume, ao perceber por quanto tempo foi escravo da síndrome de Regina George de Meninas Malvadas. Os Reis da Festa sempre vai se destacar pelo seu humor, pela brincadeira de trazer um ambiente tão comum em filmes da Sessão da Tarde para a nossa realidade, sem falar que Júlio sou eu vendo referências à Crepúsculo ou algum livro da Meg Cabot em qualquer situação da minha vida! Mas Contra Tempo sempre sai na dianteira. Nele pude falar sobre tanta coisa séria, como o racismo, de preconceito de classes sociais, gordofobia, bullying, sobre as questões em abraçar a sua sexualidade, e tudo no meio de uma aventura temporal. Depois de tudo o que eu disse nesta entrevista, acho que não seria surpresa alguma escolher ele como campeão deste Battle Royale (Júlio ficaria feliz com esta referência).

Vocês já conheciam o Henri? Já leu alguma das suas história? Conta aqui nos comentários pra gente e até a próxima.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *